Overdose
Aquela voz lá, bem longe, era sua quando eu andava devagar, passando por uma névoa espessa, eu não conseguia ver nada a não ser as lagrimas que caíam de meus olhos e fazia molhar meus labios, que te chamaram, e hoje tremem, assombram-me, por dentro. Rangem a dor e aquele desespero - de repente o vazio toma conta - caído no chão eu sofro, respiro o que é meu ultimo adeus ao que posso ver, sentir, imaginar. E lá vem você, segurando minha cabeça, chorando o arrependimento de ter me jogado ao fim do poço, de ter me feito morar na escuridão de meus sombrios pensamentos, rigorosos, que cobram de ti uma culpa que é minha, uma dor que é minha, e a vida que era sua, que tirei de mim, que roubei de mim, e que nem tu ficaste, nem eu. Se perdeu no mundo das minhas amarguras e dores, dos choros e ardores, do fogo e, agora, da solidão.
Miltinho Ferreira
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