quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Santuário

Santuário

Notando que as coisas não estão mais expostas na mesma estante e nem mais escondidas por trás daqueles livros que eu guardava, fingindo ler todos eles, para mim ou quem quisesse ver. Era só mais um tempo em que eu me iludia na convenção de pássaros que teimavam voar sobre mim, sem convites pairavam meus pensamentos e sonhos, e, sem que eu enxergasse, iam embora, levando com eles cada presença de mim, cada sopro ou respiração. Subiam alto o céu e cantavam cantigas que eu um dia ouvi, quando criança, e que hoje me fazem perceber a existência de um eu esquecido, imaginado e insensível. Simples como o bater das asas que os tira do chão e os leva longe, são assim meus pensamentos. São simples e compostos, substantivos de mim, adjetivos sem fim, que perco, que mordo e que sofro, e, mais ainda me submerso e me submeto, me atinjo como alvo em sintonia de dó, me livro de todos eles, da nota maior para a menor. Grito lá de cima que sou livre, amarrado aos pés pela corda de meus pensamentos, meus inventos, meus instintos que me fazem acreditar ser livre apenas por bater asas e voar.


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